sábado, 3 de janeiro de 2009
Comida e Cultura Andina
Tilcara realmente é uma cidadezinha bacana. Ontem a noite saí a pé pelas ruas da cidade, algo que nao constitui exatamente um desafio já que em 5 ou 6 quadras é possível ir praticamente de qualquer lugar a qualquer ponto do vilarejo. Na praca da igreja, tava rolando uma grande feira de artesanato, que pelo que me contou uma das artesas (parenteses: desisto de tentar achar "til" neste teclado andino, senao nao termino essa postagem nem até amanha...), funciona todos os dias, das 9h as 22h. Tive a impressao de que muito dos costumes dos povos primitivos que habitavam esta regiao antes da invasao espanhola continuam presentes naquele artesanato. Evidentemente muita coisa é feita para turista, o que nao constitui necessariamente um problema (gorros de llama, blusas de la multicoloridas (eita, lá vem o multicolorido outra vez...) e coisas do genero. Mas muito do artesanato produzido carrega simbologias e significados que nao compreendemos a "olho nu" mas que estao ali presentes. Um outro dado interessante, é que Tilcara foi a maior resistencia ao domínio Espanhol, em grande parte, devido a existênia de uma fortificaçao indigena rudimentar (o tal monumento que só abre as 9h) que propiciou aos ancestrais dos orgulhosos cidadaos de Tilcara resistir aos espanhois por mais de 50 anos.
A populacao da cidade tem, predominantemente, uma aparencia andina mesmo, cara e compleicao fisica de indio. É um povo bastante devoto aos seus santos. Caminhando pelas ruas, é possível olhar pela janela de várias casas e perceber nas salas onde as famílias se reúnem, imagens de santos e toda sorte de penduricalho religioso. Ao lado do hotel, na rua, há um mini presépio montado, e percebi muitas pessoas passando na frente do presepio e fazendo o sinal da cruz. Pelas ruas da cidade, no inicio da noite, pelo menos duas "procissoes" podiam ser vistas em momentos e lugares distintos, com um grupo de pessoas caminhando, entoando canticos, e com um tocador de flauta (com aquela sonoridade tipica dos andes - ou se preferir, dos bolivianos que ficavam na boca maldita em Curitiba anos atras tocando e vendendo seus CDs...) e um batedor de bumbo.
A cidade tem uma configuracao bastante irregular. As ruas nao sao simetricas mas eh praticamente impossivel se perder. Muitas ruas de chao batido, e nas que tem calcamento feito com pedras irregulares, evidentemente que a terra andina das montanhas e das ruas nao pavimentadas praticamente toma todos os espacos. Impressionante também é a diversidade de opcoes gastronomicas numa cidade deste tamanho. Encontrei desde estabelecimentos seguramente frequentados apenas pela populacao local até restaurantes bastante sofisticados, nos quais, tenho certeza, a populacao da cidade, se colocou o pé, foi como empregado. Na primeira categoria situam-se aqueles bares estilo "pé sujo", com iluminaçao (achei a cedilha!!!!!!) irregular, mesas simples, poeira nos balcoes, e gente nas mesas com garrafas pet de fanta ou sprite sendo compartilhada entre 4 ou 5 convivas. Na segunda categoria, restaurantes como os que temos em Curitiba ou qualquer outra capitalk, refinados, de apresentacao impecavel, mas que para meu gosto pessoal, num lugar como este, nao vale a pena. Comer em restaurante "cosmopolita" em como em Curitiba, certo? Por isto mesmo, procurei ficar no meio termo. Vários lugares com musica ao vivo, inevitavelmente (e felizmente!!!!) tradicional e regional, com excecao de um local onde rolava um jazz. Alias, este local do jazz era outra coisa interessante, embora dono de um cardapio refinadissimo (onde se apresentavam pratos como cordeiro cozido sei lá eu de que jeito, com batatas cozidas no vinho num sei de que tipo, ou ainda chorizo com guarnizaco de arroz com nozes, damascos e morcilla), tinha uma atmosfera bem particular, com mesas bem simples espalhadas pelo salao, iluminacao de velas, numa combinacao bastante interessante entre o regionalismo local e o que me pareceu ser boa comida. Mas minha escolha recaiu em um estabelecimento chamado "La Peña de Carlitos" (http://www.lapeniadecarlitos.com.ar/home.html). Carlitos é um músico que pelo que entendi obteve alguma projeçao nacional e retornou a Tilcara para viver aqui. O La Peña é a reconstruçao de um restaurante que funcionou de 1967 a 2000 no mesmo lugar sob a batuta dos pais do Carlitos, mas em 2000 um vento muito forte, "hurricanado" destruiu tudo. Carlitos reconstruiu o lugar com a ajuda de amigos e hoje é um "comedor familiar" que serve comida regional e conta com apresentaços diárias de Carlitos e músicos convidados, num show em que o anfitriao intercala cançoes a historias de Tilcara, dos costumes, da cultura, do carnaval da regiao, rolando até uma "dancinha" no final com um casal devidamente caracterizado. Cancoes muito bonitas, especialmente quando um flautista se junto a Carlitos para interpretar musicas da autoria de compositores de Tilcara e regiao. Já no quesito comida, alem da tradicional empanada para entrada, mandei um churrasco de llama! Interessante, mas nada de muito diferente... Se nao me contassem que era llama, eu teria comido e achado que era boi sem maiores problemas.
Muito bem, e agora que já sao 8:30, vou vazar pra passar na praca de Tilcara ntes de ir à fortaleza e fazer umas fotos.
Saludos!
sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
Etapa 2 - Corrientes - Tilcara - 946 KM
Agora sim, a viagem começou. Mas antes, vamos à inusitada noite do dia primeiro de Janeiro em Corrientes. Primeiro, tive que fazer uma romaria por TODAS as parrillas da cidade para descobrir que TODAS estavam fechadas por causa do feriado. Depois deste interessantíssimo tour proporcionado pelo taxista, parei numa tal de Piedra Libre para comer. Tratava-se de um restaurante daqueles cuja especialidade é TUDO (mal sinal...). Pizza, hamburguesa, milanesa, chorizo, massa, peixe. O que a imaginação mandasse. Lugarzinho estranho... um salão gigantesco e eu sozinho como único cliente sendo atendido pelas 3 prestativas garçonetes. Pedi um chorizo e, evidentemente, comi provavelmente o pior chorizo da minha vida (também, queria o que???? Ao invés de ficar na trivial pizza foi inventar moda num restaurante desse naipe, só podia dar nisso...). Muito bem, combinei com o infeliz do taxista pra me pegar num certo horário, e o infame não apareceu. Pedi pra gentil garçonete me chamar um e fique UMA HORA de pé na porta da espelunca esperando o táxi que não apareceu. Perguntei pra anta da garçonete (evidentemente a essas alturas ela já tinha deixado de ser prestativa na minha escala de avaliação há muito tempo...) se o meu hotel era longe dali porque eu queria ir a pé e ela disse que era muito distante. Tive que me virar, fui pro meio da rua literalmente caçar uma porcaria de um “remis”, no que tive sucesso. O cara mal começa andar e... chega ao hotel! Literalmente, 5 quadras. Sem comentários adicionais...
Hoje saí de Corrientes as 7h da manhã debaixo de chuva. Na saída do hotel, um senhor que também estava de saída comentou que o dia não estava bom pra moto. Mal sabia ele que chuva era tudo que eu podia querer pra hoje para atravessar o chaco e o Pampa Del Infierno. Além de amenizar o calor, a chuva também contribuiu para minimizar o consumo do meu pneu traseiro que já começa a ficar “em observação”. Na viagem a Ushuaia o Michelin Anakee abriu o bico com exatos 10.000 km, e como já passei dos 6.000 km com o Metzeler Endurance que está na moto e ainda tenho mais de 5.000 km pela frente, já começo a me preocupar. Mas a chuva hoje deu um bom refresco. O plano original era dormir em Salta, mas mudei de idéia, já uqe a viagem estava rendendo bem, e resolvi continuar até San Salvador de Jujuy. Chegando nesta última, mudei de idéia de novo e resolvi seguir até Tilcara, fazendo inclusive um desvio de 20 km do caminho original. Sábia escolha!!!!!!
De Corrientes até Salta, além da chuva, uma reta sem fim de 800 km. Região desolada, bicho pra cacete na estrada (cabra, jumento, vaca e muitos pássaros) e nada de interessante. Falando em bichos, cumpre-me pedir um minuto de silencia pela alma de um pobre pássaro que foi atropelado por mim..............................................................................ó dó!!!! Hoje a temperatura permaneceu oscilando entre 20 e 22 graus, para minha sorte e alívio, até Salta. O interessante foi observar a mudança de paisagem. A província do Chaco é extremamente árida. Entrando na província de Salta, há uma mudança gradativa, mas rápida, com campos verdes surgindo, algumas montanhas ao fundo. Saindo de Salta e entrando em Jujuy, aí sim, finalmente começou a viagem de verdade. Depois de 2.000 km de planície e mesmice na paisagem, começam a surgir montanhas, a vegetação fica diversificada e a própria estrada torna-se mais interessante. Em San Salvador de Jujuy, caía água que não acabava mais e resolvi seguir até Tilcara. No começo, me preocupei... A estrada começou a subir de forma acentuada e o termômetro começou a cair de forma inversamente proporcional. Num dado momento, chegou a 9 graus e eu já tava vendo a viola em caco, já que parar pra pegar as partes “quentes” das roupas de pilotagem debaixo de chuva era inviável. Mas pelo menos valeu pra me tornar um ardoroso defensor do aquecimento de manopla que muita gente acha frescura...
Mas o fato é que valeu a pena continuar. Embora com frio e chuva, a estrada foi ficando cada vez mais interessante. Agora já trafegava entre as montanhas, com paisagens muito bonitas (pelo menos, o que era possível ver através da neblina). Continuei subindo e, subitamente, mais uma vez, a impressão foi de um “corte” no clima em que eu estava enfiado para o início de um outro. A chuva parou, a neblina desapareceu e aí sim, foi pura diversão. De San Salvador de Jujuy a Tilcara são cerca de 80 km. Os últimos 50 km foram absolutamente impressionantes. A paisagem é belíssima, montanhas multicoloridas (ok, multicoloridas é meio gay, mas não encontrei outra palavra pra descrever...), estrada sinuosa e um rio de degelo cortando as montanhas. Aí, finalmente, começaram as fotos, algumas das quais seguem publicadas.
Pra terminar, cheguei em Tilcara e comecei a busca por hotel. Segui umas placas que vinham desde a entrada da cidade apontando um tal de Las Terrazas hotel butique e resolvi seguir pra ver no que dava. No caminho, circulei pela cidade que é fantástica. Muita gente na rua (predominantemente turistas), o povo local com aparência de índio, ruas estreitas, uma cidadezinha de 3.000 habitantes encravada no meio da montanha. Muitos bares, uma feira de artesanato na praça central, um bar que se auto-intitula o “ponto de encontro dos músicos” e, no final de tudo isso, achei o tal do Las Terrazas. Sinceramente, algo impensável de se achar num fim de mundo como esse. Um hotel muito, mas muito bacana, com piscina de borda infinita voltada pras montanhas, todo construído em estilo rústico, muitas pedras, realmente muito bonito. Aí não teve jeito, tive que ficar por aqui mesmo.
O fato pitoresco do dia foi um policial, no meio do Chaco, com uma cara de coitado das maiores que já vi na vida, dentes na boca no estilo um sim, outro não, outro também não, que me parou, pediu os documentos, aquela conversa mole sobre a moto, “que máquina”, etc e tal e no final, me devolveu os documentos e na maior cara dura, pediu uma “colaboracion para tomar uma gaseosa”. Juro que tentei, mas não tive como não cair na risada! Taí, gostei da honestidade, pelo menos não ficou inventando motivo pra querer “me multar”. Foi direto ao assunto. Em consideração, fiz uma doação voluntária de 2 dólares para a “gaseosa” do seu guarda... :-D
Agora, chega de conversa que faltam só 3 minutos pra hora de tomar a primeira Quilmes.
Saludos e espero voltar amanhã já de San Pedro do Atacama.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Etapa 1 - Curitiba - Corrientes - 1.200 km
A moto se comporta expcionalmente bem até aqui, com exceção do marcador de combustível que "surtou", tornou-se inoperante e, a parte chata, é que a luz de advertência de falta combustível agora fica constantemente acesa no painel. E, falando na moto, como de costume, ela é o quebra-gelo por definição. Em TODOS os lugares em que parei, fosse pr
Outro ponto positivo até aqui têm sido os policiais argentinos. Nem sinal de problemas até aqui, fui parado em duas oportunidades sem nenhuma tentativa de achaque. Esperamos que continue assim.
Agora, vou à recompensa do dia: o bom e velho bife de chorizo com uma quilmes de litro. Vou aproveitar pra decidir o trajeto que vou fazer amanhã (devo chegar em Salta ou San Salvador de Jujuy). O policial da alfandega me deu uma dica de um caminho alternativo que não cruza o chaco del infierno (outra reta sem fim, possivelmente mais longa e mais quente que a de hoje), mas tenho a impressão de que aumenta muito o caminho. Vou decidir depois da Quilmes...
Hoje, enquanto rodava naquele calor infernal, derretendo dentro das roupas de pilotagem, estradas desertas por causa do feriado de 01 de janeiro, pensava comigo mesmo: "que diabos tô fazendo aqui??? Podia estar na praia, na piscina, debaixo de um ar condicionado ou sei lá eu onde e fui me meter nesse quase deserto do cão!". E, ao mesmo tempo em que esse instigante raciocínio me ocupava a mente, em uma fração de segundo eu me lembrava de que isto simplesmente não tem explicação. É a paixão pelo motociclismo, pela estrada, por rodar, por sair do lugar comum. Sem dúvida, este ano começou fantasticamente bem!!!! :-)
Hasta mañana, amigos!
